Teresa Branco
Directora de TO BE.
Portugal gasta mais de 600 mil euros por dia em injeções para emagrecer, sem qualquer comparticipação do SNS (Sistema Nacional de Saúde).
O número, confirmado pelo Infarmed, obriga a uma conversa que devia ter começado há muito tempo: se a obesidade como doença crónica já está reconhecida pela ciência e pela OMS, porque é que o sistema de saúde português continua a tratá-la como uma questão de força de vontade?
”“A obesidade como doença crónica não se trata com força de vontade, trata-se com medicina.”
O número que obriga à conversa
Mais de 2355 medicamentos para perda de peso dos recetores de GLP-1 são vendidos por dia nas farmácias portuguesas. O preço de um mês de tratamento pode chegar aos 340 euros. No total, são cerca de 613 mil euros diários pagos na totalidade pelos doentes, porque estes medicamentos não têm, ainda, comparticipação do SNS.
O Infarmed sinalizou que a comparticipação destes fármacos só deverá avançar no âmbito de um novo sistema de avaliação de tecnologias de saúde. A secretária de Estado da Saúde confirmou à RTP que “a decisão sobre o modelo de comparticipação seria tomada brevemente”. O debate chegou, finalmente, ao topo da agenda política.
Coloca-se, porém, uma pergunta anterior a esta: porque chegou Portugal tão tarde a este ponto? A resposta está, em grande medida, no facto de a obesidade como doença crónica ainda não ter recebido, na prática clínica e política, o mesmo estatuto que outras patologias crónicas, como a diabetes ou a hipertensão, que são comparticipadas pelo SNS.
Não é fraqueza, é biologia.
A Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), a Associação Portuguesa de Pessoas que Vivem com Obesidade (ADEXO) e a Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (APCOI) lançaram o guia “As palavras pesam – Como falar de obesidade”. A mensagem central é clara: a obesidade não é resultado de escolhas individuais falhadas. É uma doença neurobiológica, genética e crónica.
“A grande maioria dos doentes são resistentes à leptina e não conseguem queimar gordura. (…) Isto é um problema biológico e não comportamental”, afirmou Carlos Oliveira, presidente da ADEXO. O presidente da SPEO, José Silva Nunes, foi igualmente direto: “Quando se mantém a ideia de que a obesidade resulta apenas de falta de força de vontade, está-se a perpetuar desigualdades e estigma.”
Tratar a obesidade como doença crónica significa aceitar que o cérebro de quem vive com esta patologia induz a ingestão alimentar como mecanismo de sobrevivência, e que nenhuma instrução de “coma menos e mexa-se mais” vai sobrepor-se a esse comando biológico. A ciência é inequívoca neste ponto.
Os dados do Eurostat relativos a 2025 confirmam a dimensão do problema em Portugal: 38,2% da população adulta tem excesso de peso e 17% tem obesidade. Segundo dados de 2022, entre as crianças dos sete aos nove anos, 31,9% apresentavam excesso de peso e 13,5% obesidade.
A linguagem também trata ou adoece
Alterar a linguagem em torno da obesidade não é uma questão de estilo, é uma questão clínica com impacto direto nos resultados de saúde. A proposta do guia “As palavras pesam” de substituir “pessoa obesa” por “pessoa que vive com obesidade” não é apenas politicamente correta: é clinicamente relevante.
O estigma associado à obesidade afasta as pessoas dos cuidados de saúde. Quando um doente receia ser julgado pelo médico ou pelo enfermeiro, adia a consulta. Quando a sociedade ridiculariza quem tem excesso de peso, a vergonha torna-se uma barreira ao tratamento. O estigma prejudica a saúde de forma lenta, mas documentada.
O guia alerta ainda para a linguagem utilizada pelos meios de comunicação social: imagens de hambúrgueres ou de corpos parcialmente expostos continuam a ser o padrão para ilustrar notícias sobre obesidade. “As pessoas com obesidade têm vidas, fazem coisas, não são assim”, sublinhou Carlos Oliveira. Reconhecer a obesidade como doença crónica passa, também, por mudar a forma como é representada, nos media, nos serviços de saúde e na sociedade em geral.
A abordagem clínica da TO BE. assenta precisamente neste princípio: a comunicação com os doentes é feita com base na evidência, sem juízo de valor e sem simplificações. O peso é um dado clínico, não uma classificação moral.
Portugal entre os países onde a obesidade infantil começa a abrandar
Em 2026, Portugal integra um grupo restrito de países europeus onde a prevalência de obesidade infantil está a abrandar. É um sinal positivo, mas que exige contextualização: os números continuam elevados e as desigualdades socioeconómicas continuam a ser um fator determinante.
A redução, ainda que modesta, é atribuída a políticas de literacia alimentar nas escolas, à reformulação de produtos pelo setor alimentar e a uma maior consciencialização dos profissionais de saúde. Nenhuma destas medidas seria eficaz sem o reconhecimento de que se está perante a obesidade como doença crónica que começa cedo, e que exige intervenção precoce, não apenas gestão retrospetiva dos danos.
Do ponto de vista clínico, este dado reforça algo que a TO BE. defende na sua abordagem: o historial de peso ao longo da vida, incluindo a adolescência, os anos reprodutivos, a gravidez e o pós-parto, no caso das mulheres – é informação clínica essencial.
¿Qué cambia para las mujeres?
A obesidade não afeta homens e mulheres da mesma forma. As variações hormonais ao longo da vida feminina, desde a puberdade, passando pelo síndrome do ovário poliquístico (SOP), gravidez, pós-parto e menopausa, influenciam diretamente a composição corporal, a distribuição de gordura e a eficácia das intervenções terapêuticas, sejam elas farmacológicas, nutricionais ou cirúrgicas.
Uma mulher com a mesma massa corporal que um homem pode ter um risco metabólico completamente diferente. Uma mulher em menopausa que ganhou peso nos últimos dois anos não está a “deixar-se ir” – está a responder a uma alteração hormonal profunda que modifica o metabolismo basal, redistribui gordura para a zona visceral e aumenta o risco cardiovascular e oncológico.
Tratar a obesidade como doença crónica na mulher exige, por isso, uma abordagem personalizada que contemple:
- Avaliação hormonal detalhada – e não apenas o IMC (Índice de Massa Corporal);
- Análise da composição corporal (massa gorda vs. massa muscular);
- Contextualização do histórico reprodutivo e metabólico;
- Plano terapêutico que inclua, quando indicado, farmacoterapia, como os GLP-1, e não apenas “dieta e exercício”;
- Acompanhamento longitudinal porque a obesidade é crónica e o tratamento também o é.
A TO BE., enquanto clínica médica dedicada à saúde da mulher, aplica este modelo de forma sistemática. A obesidade é tratada com a mesma seriedade clínica que qualquer outra doença crónica porque a obesidade como doença crónica é exatamente isso: uma doença crónica que merece diagnóstico, tratamento e seguimento.
O sistema está a mudar. O tratamento não pode esperar.
A discussão sobre comparticipação dos GLP-1 é importante e bem-vinda. Mas o acesso aos medicamentos é apenas uma peça do puzzle. O que é verdadeiramente urgente é mudar a forma como o sistema de saúde e a sociedade encaram a obesidade: não como falha moral, mas como doença complexa que exige resposta médica estruturada.
Portugal começa a dar passos nessa direção. A evidência científica, as associações de doentes, os especialistas e, espera-se, o SNS estão a alinhar-se em torno de um princípio básico: a obesidade como doença crónica precisa de ser tratada como tal. Para as mulheres, que carregam um risco metabólico distinto e muitas vezes subdiagnosticado, este alinhamento é especialmente urgente.
A consulta médica é o primeiro passo.
O que é a obesidade mórbida e quais os riscos?
A denominada “obesidade mórbida”, termo que alguns especialistas preferem substituir por “obesidade grave” ou “obesidade de grau III”, corresponde a um Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 40 kg/m². Neste grau, a doença associa-se a um risco significativamente elevado de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares (hipertensão, enfarte, AVC), apneia do sono, problemas articulares, síndrome metabólico, alguns tipos de cancro (mama, útero, cólon) e perturbações de saúde mental. Nas mulheres, aumenta ainda o risco de complicações obstétricas e de infertilidade. O tratamento exige abordagem multidisciplinar — nutricional, médica e psicológica e, em muitos casos, farmacoterapia ou cirurgia bariátrica.
Quando é que a obesidade é considerada doença?
A obesidade é oficialmente classificada como doença crónica pela Organização Mundial de Saúde (OMS), pela American Medical Association (desde 2013) e por inúmeras sociedades científicas internacionais, incluindo a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO). É considerada uma doença a partir do momento em que o excesso de massa gorda compromete a saúde física ou psicológica do indivíduo. Não se trata de um estado transitório nem de uma escolha, é uma condição neurobiológica, genética e metabólica que requer diagnóstico e tratamento médico multidisciplinar.
A partir de que IMC se considera obesidade mórbida?
A obesidade mórbida (ou obesidade de grau III) é definida por um IMC igual ou superior a 40 kg/m². No entanto, o IMC por si só é um indicador limitado: não distingue massa gorda de massa muscular, nem considera a distribuição da gordura no organismo. Uma mulher com IMC de 38 e gordura maioritariamente visceral pode ter um risco metabólico superior a outra com IMC de 41 e gordura periférica. Por isso, na avaliação clínica da obesidade devem ser considerados outros parâmetros: perímetro abdominal, composição corporal, marcadores metabólicos e histórico hormonal.
Porque é que a obesidade infantil tem vindo a aumentar?
O aumento da obesidade infantil nas últimas décadas resulta da combinação de vários fatores: maior disponibilidade e agressividade do marketing de alimentos ultraprocessados, redução da atividade física espontânea, ambientes escolares e urbanos pouco favoráveis ao exercício, e desigualdades socioeconómicas que condicionam o acesso a alimentação de qualidade. A predisposição genética também desempenha um papel relevante: crianças cujos pais têm obesidade apresentam risco significativamente mais elevado de desenvolver a doença. A boa notícia é que “Portugal integra um grupo restrito de países europeus onde a prevalência de obesidade infantil está a abrandar”.


